Os Filhos de Gandhy fazem parte da história dos afoxés baianos e ocupam um lugar de destaque na cultura de Salvador. Criado em 1949 por trabalhadores do Porto de Salvador, o grupo transformou-se em uma das manifestações mais conhecidas do Carnaval da Bahia e em uma referência das tradições afro-brasileiras.
Com roupas brancas e azuis, turbantes, colares, perfume de alfazema e uma sonoridade marcada pelo ijexá, o afoxé leva às ruas uma combinação de música, religiosidade, memória e mensagem de paz. Sua presença não se limita ao desfile carnavalesco: a entidade mantém uma identidade cultural e espiritual ligada à ancestralidade negra e às religiões de matriz africana.
O que é o afoxé Filhos de Gandhy
O Filhos de Gandhy é uma entidade cultural, recreativa e carnavalesca conhecida como afoxé. Esse tipo de agremiação tem origem nas tradições afro-brasileiras e costuma desfilar acompanhado por instrumentos de percussão, cânticos em iorubá e referências religiosas.
Ao contrário de um bloco carnavalesco formado apenas para a folia, o afoxé possui uma dimensão cultural e espiritual própria. Seus cortejos podem ser precedidos por rituais, saudações e cerimônias relacionadas às tradições de matriz africana. No caso dos Filhos de Gandhy, a presença de elementos ligados ao candomblé é parte importante de sua trajetória.
A Secretaria de Cultura do Estado da Bahia descreve o grupo como uma das entidades mais fortes do Carnaval de Salvador. A Prefeitura de Salvador também destaca a influência do afoxé na preservação do ijexá, ritmo de origem africana incorporado à música dos cortejos baianos.
Fundação por trabalhadores do Porto de Salvador
Os Filhos de Gandhy foram fundados em 18 de fevereiro de 1949, em Salvador. A criação ocorreu entre trabalhadores do cais do porto, em um período marcado pelo impacto da Segunda Guerra Mundial e pela repercussão internacional da trajetória de Mahatma Gandhi, líder indiano associado à defesa da paz e da não violência.
O grupo nasceu inicialmente como um bloco carnavalesco. A escolha do nome expressava a admiração por Gandhi e procurava associar a nova agremiação a valores como fraternidade, respeito e convivência pacífica. A grafia “Gandhy”, com y, passou a identificar oficialmente a entidade.
De acordo com registros históricos reunidos pela Secretaria de Cultura da Bahia, os trabalhadores se organizaram nas proximidades da sede do Sindicato dos Estivadores do Porto de Salvador. A iniciativa dos estivadores ajudou a estabelecer uma ligação entre o afoxé, a sociabilidade do trabalho portuário e a vida cultural da cidade.
Nos primeiros anos, o grupo passou a incorporar símbolos, personagens e elementos visuais inspirados tanto na imagem de Gandhi quanto em referências africanas e afro-brasileiras. Com o tempo, a agremiação deixou de ser vista apenas como um bloco de Carnaval e se consolidou como um afoxé.
Como os Filhos de Gandhy se tornaram um afoxé
A transformação ocorreu quando foram introduzidas músicas afro-brasileiras e referências do candomblé na organização do cortejo. O ijexá tornou-se a base rítmica da apresentação, acompanhado por instrumentos como agogôs e atabaques.
Os cânticos em iorubá e a ligação com divindades cultuadas nas religiões de matriz africana deram ao desfile uma dimensão própria. Por isso, o Filhos de Gandhy é frequentemente associado à ideia de “candomblé de rua”, expressão usada para explicar a presença de elementos religiosos e ancestrais no espaço público.
Essa característica também ajuda a diferenciar o afoxé de outras manifestações carnavalescas. O cortejo reúne música, dança, indumentária e símbolos, mas preserva uma relação com a espiritualidade e com a memória coletiva da população negra da Bahia.
O significado das roupas e dos símbolos
O chamado “tapete branco” é uma das imagens mais conhecidas dos Filhos de Gandhy. A predominância do branco nas roupas dos participantes está associada à paz e à inspiração na figura de Gandhi. O azul também se tornou uma das cores tradicionais do grupo.
Os participantes costumam usar turbantes, batas e calças brancas, além de colares azuis e brancos. Os colares distribuídos durante o Carnaval são reconhecidos como um dos símbolos mais populares do afoxé e estão ligados a uma mensagem de paz e proteção.
O perfume de alfazema também integra a identidade do grupo. A fragrância aparece associada ao cortejo e às tradições religiosas afro-brasileiras, reforçando a dimensão sensorial e ritual da apresentação.
Ao longo da história, o afoxé também incorporou alegorias e personagens. Entre eles estão figuras associadas à resistência, à força e à representação simbólica da trajetória de Gandhi. Esses elementos foram sendo adaptados e preservados conforme a agremiação ampliou sua presença no Carnaval de Salvador.
O ijexá e a música do cortejo
O ijexá é um dos principais elementos musicais dos Filhos de Gandhy. O ritmo, relacionado às tradições iorubás, ganhou grande projeção na Bahia por meio dos afoxés e passou a influenciar artistas, compositores e grupos de diferentes estilos.
No desfile, a percussão cria uma cadência contínua, marcada pelo agogô e por outros instrumentos. Os cânticos em iorubá reforçam a conexão do cortejo com as culturas africanas e com as religiões de matriz africana.
A música, nesse contexto, não funciona apenas como trilha sonora para o Carnaval. Ela organiza o deslocamento dos participantes, sustenta a dança, orienta os momentos do cortejo e ajuda a transmitir ensinamentos, saudações e valores ancestrais.
A crise dos anos 1970 e a retomada
Os Filhos de Gandhy enfrentaram uma crise administrativa e financeira na década de 1970. Em 1974, a entidade deixou de desfilar e perdeu sua sede, em um período de dificuldades que ameaçaram a continuidade do afoxé.
A retomada ocorreu dois anos depois, em 1976, com campanhas de incentivo promovidas por radialistas e o apoio de integrantes e artistas baianos. A reorganização contou com a participação de Camafeu de Oxóssi na presidência e com o apoio de nomes como Gilberto Gil.
Naquele retorno, o grupo saiu às ruas com cerca de 80 homens. A partir daí, o número de participantes voltou a crescer, e a agremiação passou a reunir também pessoas que não trabalhavam no setor portuário. Essa ampliação ajudou a transformar o afoxé em uma entidade de alcance popular e internacional.
Presença no Carnaval de Salvador
Durante o Carnaval, os Filhos de Gandhy se destacam pelo cortejo formado por milhares de participantes vestidos predominantemente de branco e azul. A passagem do afoxé pelo Centro Histórico de Salvador é uma das cenas mais reconhecidas da festa baiana.
O desfile também expressa uma reivindicação histórica dos afoxés: o reconhecimento de sua importância na formação do Carnaval de rua. Antes da expansão dos grandes trios elétricos e dos blocos comerciais, os afoxés já ocupavam as ruas com música, dança, religiosidade e organização comunitária.
A presença do grupo no Carnaval ajuda a manter visíveis referências africanas que estão na base da identidade cultural da Bahia. Ao mesmo tempo, o cortejo apresenta essa tradição a novas gerações e a visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo.
Por que os Filhos de Gandhy são importantes para a cultura baiana
A importância dos Filhos de Gandhy está relacionada a diferentes dimensões. A primeira é a preservação de práticas musicais e religiosas afro-brasileiras. O grupo mantém o ijexá, os cânticos em iorubá e elementos do candomblé no centro de uma manifestação pública de grande alcance.
A segunda dimensão é histórica. A origem entre trabalhadores portuários mostra como associações profissionais, redes de solidariedade e comunidades negras participaram da construção do Carnaval de Salvador.
Há ainda uma dimensão social. O afoxé contribui para valorizar a identidade negra, combater a intolerância religiosa e fortalecer o reconhecimento das culturas de matriz africana. Essa atuação acontece tanto durante o Carnaval quanto em atividades culturais realizadas ao longo do ano.
A trajetória do grupo também demonstra a capacidade de resistência das manifestações populares. Mesmo depois de uma crise que interrompeu os desfiles, os Filhos de Gandhy foram reorganizados e voltaram a ocupar as ruas de Salvador.
Como acompanhar os Filhos de Gandhy
Quem deseja conhecer o trabalho da entidade deve consultar os canais oficiais do Afoxé Filhos de Gandhy. O site institucional reúne informações sobre a história do grupo, comunicados, projetos, apresentações e atividades culturais.
Para acompanhar desfiles e eventos, é importante verificar previamente as informações divulgadas pela própria organização e pelos órgãos oficiais de cultura e turismo. A programação do Carnaval pode mudar de acordo com o ano, o circuito, os horários e as decisões da organização da festa.
Também é recomendável respeitar os rituais, os símbolos e as orientações do afoxé durante as apresentações. O cortejo não deve ser tratado apenas como atração turística: ele envolve referências religiosas, memória comunitária e práticas culturais que merecem ser observadas com respeito.
Informações institucionais podem ser consultadas no site oficial do Afoxé Filhos de Gandhy, além dos canais da Secretaria de Cultura da Bahia e dos órgãos municipais responsáveis pela programação cultural de Salvador.
Filhos de Gandhy na história dos afoxés baianos
Os Filhos de Gandhy fazem parte de uma tradição mais ampla de afoxés que ajudaram a formar a cultura carnavalesca da Bahia. Sua história reúne trabalho, religiosidade, música, resistência e participação comunitária.
Mais de sete décadas depois da fundação, o grupo continua associado à imagem de Salvador e ao reconhecimento da cultura afro-baiana. O branco e o azul das roupas, o toque do ijexá, os cânticos em iorubá e a mensagem de paz formam uma identidade que atravessa gerações.
Conhecer os Filhos de Gandhy é, portanto, compreender uma parte importante da história dos afoxés baianos e da presença africana na cultura brasileira. O grupo permanece como símbolo de ancestralidade, organização popular e ocupação cultural das ruas.





