Cuidar da saúde mental também significa perceber quando o sofrimento deixa de ser passageiro e começa a afetar a rotina, os relacionamentos, o trabalho, os estudos ou a capacidade de realizar tarefas básicas. Nesses casos, buscar atendimento profissional pode ajudar a identificar o que está acontecendo e definir o cuidado mais adequado.
Na Bahia, a porta de entrada pode ser a Unidade Básica de Saúde (UBS), o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou outro serviço da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), conforme a necessidade de cada pessoa. Em situações de urgência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pode ser acionado pelo número 192.
O atendimento profissional não deve ser visto como sinal de fraqueza. A saúde mental é parte do cuidado integral à saúde, e o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece serviços gratuitos para acolher pessoas em sofrimento psíquico, inclusive em situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.
Quando é hora de procurar ajuda
Não existe uma regra única que determine o momento exato de buscar atendimento. A orientação geral é procurar ajuda quando os sinais provocam sofrimento intenso, permanecem por um período prolongado ou interferem na vida cotidiana.
Tristeza, preocupação, irritação, medo e cansaço podem ocorrer em diferentes momentos da vida. O que merece atenção é a frequência, a intensidade e o impacto dessas experiências. Mesmo que a pessoa não consiga explicar exatamente o que sente, a dificuldade persistente para lidar com a situação já é motivo suficiente para conversar com um profissional.
Entre os sinais que podem indicar a necessidade de avaliação estão:
- tristeza, ansiedade, irritabilidade ou angústia que persistem e dificultam a rotina;
- alterações importantes no sono, como insônia frequente ou sono excessivo;
- mudanças marcantes no apetite ou no peso;
- perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas;
- isolamento social e dificuldade para manter vínculos;
- queda significativa no rendimento escolar ou profissional;
- cansaço constante, falta de energia ou dificuldade de concentração;
- sensação de desesperança, culpa intensa ou inutilidade;
- uso de álcool e outras drogas para tentar aliviar emoções ou enfrentar o dia;
- crises de ansiedade, medo intenso ou sensação de perda de controle;
- pensamentos relacionados à morte, à autolesão ou ao suicídio.
A presença de um desses sinais não significa, por si só, que exista um diagnóstico. A avaliação deve ser feita por profissionais habilitados, que consideram a história da pessoa, as condições de vida, os sintomas e os impactos sobre a saúde.
Psicólogo, psiquiatra ou unidade de saúde?
O psicólogo atua na avaliação e no acompanhamento de questões emocionais, comportamentais e relacionais. O atendimento pode envolver psicoterapia individual, familiar ou em grupo, de acordo com a necessidade identificada.
O psiquiatra é médico especializado em saúde mental. Ele pode realizar avaliação clínica, investigar possíveis transtornos e indicar tratamento, que pode incluir medicamentos quando houver indicação. O uso de remédios deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento profissional.
Em muitos casos, não é necessário decidir sozinho qual especialista procurar. A pessoa pode começar pela UBS de referência, onde uma equipe faz o acolhimento inicial e orienta sobre o serviço mais adequado. Também é possível buscar diretamente um CAPS da região, conforme a organização local da rede.
Informações do Ministério da Saúde sobre os CAPS indicam que esses serviços contam com equipes multiprofissionais, que podem incluir médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais. O atendimento é voltado principalmente a pessoas em sofrimento psíquico intenso, em crise ou que precisam de acompanhamento contínuo.
Como buscar atendimento pelo SUS na Bahia
A Atenção Primária, formada pelas UBS e pelas equipes de Saúde da Família, é uma das principais portas de entrada do SUS. O usuário pode procurar a unidade mais próxima de sua residência para relatar o que está sentindo e receber orientação sobre avaliação, acompanhamento ou encaminhamento.
Outra possibilidade é procurar diretamente um CAPS. De acordo com o Ministério da Saúde, o primeiro acolhimento pode ser solicitado pela própria pessoa, sem necessidade de encaminhamento prévio. A unidade avalia a situação e define se o acompanhamento será realizado ali ou se o cuidado deve ser articulado com outro serviço da rede.
Os CAPS têm modalidades diferentes. Há unidades destinadas ao atendimento de pessoas de várias faixas etárias, serviços voltados a crianças e adolescentes e unidades especializadas em necessidades relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. O funcionamento e o perfil de atendimento variam conforme o município.
Para localizar o CAPS mais próximo, a orientação oficial é procurar a Secretaria Municipal de Saúde ou obter informação na UBS do bairro. Como a rede pode mudar de acordo com a cidade, é importante confirmar diretamente os horários, os serviços disponíveis e a necessidade de documentos.
Em geral, é útil levar um documento de identificação e o cartão do SUS, quando disponíveis. A falta de algum documento não deve impedir a busca inicial por orientação em uma situação de sofrimento ou crise; a unidade poderá informar como regularizar o atendimento.
O que acontece no primeiro atendimento
O primeiro contato costuma ser uma conversa de acolhimento. A equipe procura compreender os sintomas, a duração do sofrimento, os riscos imediatos, a rede de apoio e as condições sociais e familiares da pessoa.
Nem sempre o atendimento resultará em um diagnóstico ou em uma consulta com especialista no mesmo momento. O serviço pode oferecer escuta inicial, orientação, acompanhamento, participação em grupos, atendimento individual ou encaminhamento para outro ponto da rede.
Nos CAPS, quando a pessoa é inserida no serviço, a equipe pode construir um Projeto Terapêutico Singular. Esse planejamento considera as necessidades e os objetivos do usuário e pode ser revisto ao longo do acompanhamento, com participação da família quando apropriado.
O tratamento também pode envolver mais de um serviço. Uma pessoa pode ser acompanhada pela UBS e, ao mesmo tempo, receber atendimento especializado no CAPS ou em outro ponto da RAPS. A proposta do SUS é organizar o cuidado de forma articulada, próxima do território e respeitando a autonomia do usuário.
Quando a situação é uma urgência
Algumas situações exigem atendimento imediato, principalmente quando há risco de morte, ameaça de autolesão, tentativa de suicídio, estado de confusão intensa, agitação grave, perda de contato com a realidade ou incapacidade de permanecer em segurança.
Nesses casos, não é recomendável deixar a pessoa sozinha. Afaste, se possível, objetos, medicamentos ou outros meios que possam aumentar o risco, sem colocar você ou terceiros em perigo. Procure falar com calma, evite discussões e não faça ameaças ou julgamentos.
O SAMU 192 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, e atende ocorrências de urgência, inclusive relacionadas à saúde mental. A equipe da central orienta quem faz a ligação e avalia a necessidade de envio de uma unidade.
Também é possível procurar uma UPA 24 horas, um pronto-socorro ou um hospital. A Rede de Urgência e Emergência da Bahia prevê o acolhimento e a classificação de risco de pessoas com sofrimento ou transtorno mental e de usuários que necessitam de cuidado relacionado ao álcool e a outras drogas.
Em uma situação de risco imediato, o CVV não substitui o atendimento de emergência. O mais indicado é acionar o SAMU 192 ou buscar uma unidade de urgência. O CVV pode oferecer apoio emocional e escuta, mas não realiza atendimento médico.
CVV 188 oferece apoio emocional
O Centro de Valorização da Vida (CVV) disponibiliza apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia, todos os dias. O atendimento é feito por voluntários e pode ser procurado por quem precisa conversar, está se sentindo só ou enfrenta sofrimento emocional.
O CVV informa que também oferece atendimento por chat, e-mail e, em alguns locais, presencialmente. O serviço é sigiloso e anônimo, mas não substitui psicoterapia, avaliação médica ou atendimento de emergência.
Quem está preocupado com outra pessoa também pode ligar para o 188 em busca de orientação sobre como oferecer escuta e incentivar a procura por ajuda. Em situações de risco, a prioridade continua sendo garantir a segurança e acionar os serviços de urgência.
Como apoiar alguém em sofrimento
Familiares e amigos podem ter papel importante na busca por atendimento. O primeiro passo é ouvir sem minimizar o sofrimento. Frases como “isso é falta de força de vontade” ou “todo mundo passa por isso” podem aumentar o isolamento e dificultar a procura por ajuda.
Uma abordagem mais útil é demonstrar preocupação de forma direta e respeitosa. Pergunte como a pessoa está, ofereça-se para acompanhá-la à UBS ou ao CAPS e ajude a organizar informações sobre sintomas, mudanças de comportamento e tratamentos anteriores.
Se houver menção a suicídio ou autolesão, leve a fala a sério. Perguntar sobre pensamentos suicidas não provoca esse comportamento; pode abrir espaço para que a pessoa fale sobre o que está vivendo. Em caso de risco, procure atendimento imediato e não deixe a pessoa sem supervisão até que o cuidado seja assumido por um serviço ou profissional.
Cuidados enquanto o atendimento não acontece
Medidas simples podem ajudar a atravessar períodos de sofrimento, mas não substituem o atendimento profissional. Manter contato com pessoas de confiança, tentar preservar horários de sono e alimentação, reduzir o consumo de álcool e evitar o uso de medicamentos por conta própria são atitudes importantes.
Também é recomendável anotar os sintomas, quando começaram, o que piora ou alivia o quadro e quais medicamentos ou substâncias estão sendo usados. Essas informações podem facilitar a avaliação inicial.
Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável para buscar ajuda. Na Bahia, a pessoa pode começar pela UBS, procurar um CAPS ou utilizar os serviços de urgência quando houver risco imediato. Quanto mais cedo a situação for acolhida, maiores são as possibilidades de organizar uma rede de cuidado adequada e segura.
Em caso de emergência ou risco de autolesão, ligue para o SAMU 192 ou procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital. Para apoio emocional, o CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas por dia.








