O cacau no sul da Bahia não representa apenas uma atividade agrícola. Durante décadas, o fruto esteve no centro da economia regional, influenciou a formação de cidades, estimulou a abertura de estradas, movimentou o comércio e ajudou a criar uma identidade cultural associada às fazendas, às cabrucas e ao chocolate.
A expansão da lavoura transformou especialmente municípios como Ilhéus, Itabuna, Canavieiras, Uruçuca, Camacã e Ibicaraí. O ciclo de prosperidade, porém, também foi marcado por desigualdades, instabilidade de preços, endividamento de produtores e uma forte crise provocada pela vassoura-de-bruxa a partir do fim da década de 1980.
Hoje, a região busca combinar a recuperação da produção com novas formas de geração de renda. O turismo rural, a fabricação de chocolates finos, a agricultura familiar e os sistemas agroflorestais passaram a fazer parte de uma estratégia de valorização do cacau e da história regional.
Como o cacau chegou ao sul da Bahia
As primeiras sementes de cacau levadas para a Bahia vieram da Amazônia. Registros históricos indicam que elas foram plantadas em 1746, na Fazenda Cubículo, às margens do rio Pardo, em área do atual município de Canavieiras. A primeira tentativa, no entanto, não alcançou grande desenvolvimento.
O cultivo ganhou força no século 19, quando imigrantes alemães iniciaram plantações em Ilhéus. A partir dali, a lavoura se espalhou pelos vales dos rios Almada e Cachoeira e avançou em direção às áreas dos rios Pardo e Jequitinhonha. Com o tempo, outras localidades do litoral sul e do baixo sul baiano também passaram a produzir cacau.
O ambiente de Mata Atlântica, com umidade e condições favoráveis ao desenvolvimento da planta, contribuiu para a expansão das fazendas. O sistema conhecido como cabruca, no qual os cacaueiros são cultivados sob a sombra de árvores nativas, tornou-se uma característica marcante da produção regional.
Ao contrário de culturas que exigem a retirada completa da vegetação, a cabruca pode conservar parte da cobertura florestal e oferecer abrigo para a fauna. O sistema, contudo, depende de manejo adequado e não elimina os impactos ambientais ou a necessidade de conservação das áreas de Mata Atlântica.
A formação de uma economia regional
Entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20, o cacau se firmou como um dos principais produtos de exportação da Bahia. A riqueza produzida pelas fazendas movimentou casas comerciais, armazéns, transportadoras, portos e serviços ligados ao beneficiamento e à comercialização das amêndoas.
Ilhéus tornou-se o principal centro de circulação do produto. O porto e a posição estratégica da cidade ajudaram a conectar a produção regional aos mercados de outras partes do Brasil e do exterior. Itabuna, por sua vez, consolidou-se como importante núcleo comercial e de serviços para as áreas produtoras do interior.
O crescimento da lavoura também alterou a ocupação do território. Trabalhadores foram atraídos para as fazendas, novas comunidades rurais surgiram e os caminhos entre as propriedades e os centros urbanos passaram a ter maior importância econômica. O avanço da produção estimulou investimentos em transporte, comércio, educação e serviços públicos.
Durante o auge da atividade, fazendeiros conhecidos como coronéis do cacau concentraram riqueza e influência política. O poder econômico desse grupo marcou a vida social da região e se tornou tema recorrente na literatura, na memória local e nas narrativas sobre o período de prosperidade.
O cacau na cultura e na literatura
A presença do cacau ultrapassou os limites das fazendas. O fruto passou a aparecer na culinária, nas festas, nos costumes e na linguagem cotidiana do sul da Bahia. A paisagem das plantações, a rotina dos trabalhadores e os conflitos sociais relacionados à concentração de terras também ajudaram a formar uma memória regional própria.
O escritor Jorge Amado foi um dos principais responsáveis por levar esse universo ao conhecimento de leitores de outras partes do país e do mundo. Em romances como “Cacau”, “Terras do Sem-Fim” e “São Jorge dos Ilhéus”, o autor retratou disputas por terras, relações de trabalho, riqueza, violência e transformações provocadas pela lavoura.
A literatura não substitui os registros históricos, mas contribuiu para preservar personagens, cenários e conflitos associados à economia cacaueira. Por isso, a história do cacau também pode ser percebida em museus, centros culturais, roteiros turísticos e referências arquitetônicas de cidades do litoral sul baiano.
O período de maior prosperidade
Nas décadas de 1970 e 1980, a cacauicultura alcançou um de seus momentos mais fortes. A Bahia tinha participação expressiva na produção nacional, e o cacau ocupava papel relevante na pauta de exportações brasileiras. A renda gerada pelo setor alcançava produtores, trabalhadores, comerciantes e empresas ligadas à cadeia produtiva.
O período de abundância estimulou o surgimento e a ampliação de instituições voltadas à pesquisa, à assistência técnica e ao desenvolvimento regional. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, conhecida como Ceplac, tornou-se uma das principais referências nesse processo.
Além de atuar na pesquisa e na extensão rural, a instituição participou de iniciativas relacionadas à infraestrutura e à formação profissional. A criação de estradas, escolas, hospitais e unidades de ensino esteve ligada, em diferentes momentos, ao esforço de estruturar a região produtora e aumentar a produtividade das fazendas.
Esse processo deixou marcas urbanas em municípios como Ilhéus e Itabuna. O comércio, os serviços, a construção civil e as atividades portuárias cresceram acompanhando o desempenho da lavoura. A prosperidade, entretanto, não foi distribuída de maneira uniforme e conviveu com relações de trabalho precárias e concentração de renda.
A crise provocada pela vassoura-de-bruxa
A economia cacaueira começou a enfrentar dificuldades antes mesmo da chegada da doença. Oscilações no mercado internacional, períodos de estiagem, excesso de chuvas, queda de preços e endividamento já pressionavam os produtores. No fim da década de 1980, a disseminação da vassoura-de-bruxa agravou o quadro.
Causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, a doença compromete os cacaueiros e reduz a produtividade das plantações. A infestação se espalhou pela região e provocou uma queda acentuada na produção. Segundo informações da Secretaria da Agricultura da Bahia, a produção anual, que havia chegado perto de 400 mil toneladas no início dos anos 1980, caiu para aproximadamente 96 mil toneladas em 1999.
O impacto foi econômico e social. Fazendas perderam capacidade de produção, trabalhadores ficaram sem emprego e muitos produtores acumularam dívidas. A crise também contribuiu para o êxodo rural, com a migração de famílias para cidades maiores e para outras regiões em busca de trabalho.
As cidades que dependiam diretamente da lavoura sentiram a retração no comércio e nos serviços. A redução da circulação de dinheiro afetou lojas, transportadoras, armazéns, instituições financeiras e atividades ligadas ao beneficiamento do cacau. A crise alterou a organização do território e ampliou a concentração da população nos centros urbanos.
Novas formas de produzir e agregar valor
A recuperação da cacauicultura passou pela seleção de materiais mais resistentes, pelo aprimoramento do manejo e pelo controle fitossanitário. Também ganhou importância a melhoria da fermentação e da secagem das amêndoas, etapas decisivas para determinar a qualidade e o sabor do chocolate.
Outra mudança foi a busca por agregar valor ao produto dentro da própria região. Em vez de vender apenas a amêndoa, produtores e cooperativas passaram a investir na fabricação de chocolates, nibs, bebidas, geleias, cosméticos e outros derivados.
Esse movimento abriu espaço para agricultores familiares, pequenas fábricas e marcas regionais. Em Ibicaraí, por exemplo, a cooperativa Coopfesba criou, em 2010, a marca Bahia Cacau, apresentada pelo governo estadual como a primeira fábrica de chocolate da agricultura familiar do Brasil. A iniciativa passou a transformar parte da produção local em produtos industrializados e a ampliar a renda dos agricultores.
O reconhecimento da origem e dos métodos de produção também se tornou uma ferramenta de valorização. O cacau do sul da Bahia recebeu selo de Indicação Geográfica de Procedência, associado à tradição produtiva, ao modo de cultivo e às características históricas e ambientais da região.
Turismo rural e a Estrada do Chocolate
O turismo passou a funcionar como uma forma de apresentar a história do cacau para além dos centros urbanos. Na chamada Costa do Cacau, visitantes podem encontrar fazendas abertas à visitação, experiências de colheita, demonstrações de fermentação e secagem, degustações e atividades relacionadas à fabricação de chocolate.
Um dos principais roteiros é a Estrada do Chocolate, entre Ilhéus e Uruçuca. A proposta combina paisagens de Mata Atlântica, antigas propriedades rurais, gastronomia e informações sobre o ciclo da lavoura. O roteiro também aproxima o visitante de produtores que trabalham com chocolate artesanal e sistemas de cultivo integrados à floresta.
Para quem deseja conhecer a região, é importante verificar previamente se a fazenda ou fábrica recebe visitantes, quais atividades estão disponíveis e se há necessidade de agendamento. Os serviços podem variar conforme a época do ano, a condição das estradas e a programação de cada propriedade.
O turismo ligado ao cacau também ajuda a diversificar a economia local. A renda pode alcançar guias, agricultores, cozinheiros, artesãos, transportadores e pequenos empreendedores. Quando planejada com cuidado, a atividade contribui para manter a produção rural e valorizar o patrimônio cultural.
Por que o cacau continua importante
Mesmo após a crise, o cacau continua relevante para a Bahia. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o estado permanece entre os principais produtores nacionais e tem forte participação no valor da produção brasileira do fruto.
A cadeia produtiva atual é mais diversificada do que no passado. Além das grandes propriedades, participam agricultores familiares, cooperativas, empresas de chocolate, instituições de pesquisa, órgãos de assistência técnica e empreendimentos de turismo rural.
O desafio é aumentar a produtividade sem comprometer a Mata Atlântica, melhorar a remuneração de quem produz e ampliar o processamento regional. A produção de chocolate de origem, a certificação, o controle de qualidade e a adoção de práticas sustentáveis podem fortalecer a posição do sul da Bahia no mercado.
A história do cacau mostra que uma cultura agrícola pode reorganizar cidades inteiras, gerar riqueza, influenciar a literatura e criar oportunidades. Também revela os riscos de uma economia excessivamente dependente de um único produto. No sul da Bahia, o futuro do cacau passa pela combinação entre tradição, ciência, conservação ambiental, turismo e maior participação dos produtores no valor final do chocolate.








