quarta-feira, 4 de novembro de 2026
CIDADES

Leitura dos focos no Amazonas combina geografia e vento para avaliar fumaça em Manaus

Dados da NEX mostram que o Amazonas teve menos focos de calor em 2026 do que no mesmo período de 2023. A distribuição municipal e a circulação dos ventos, porém, mantêm em análise a possível chegada de fumaça a Manaus.
fumacaemmanaus

A análise sobre a fumaça em Manaus exige mais do que a comparação entre o total de queimadas no Amazonas. Embora o estado tenha registrado queda de 26,9% nos focos de calor entre agosto e setembro de 2026, ante o mesmo período de 2023, municípios próximos da capital e do setor leste tiveram aumento nas detecções.

O levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas cruzou registros do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e mapas meteorológicos do Windy. O resultado indica áreas que podem ser acompanhadas em episódios de fumaça, mas não confirma a origem das partículas que chegam à cidade.

Queda no total estadual esconde diferenças entre municípios

Foram contabilizados 65.610 focos de calor no Amazonas entre agosto e setembro de 2026, contra 89.758 no mesmo intervalo de 2023. A diferença foi de 24.148 detecções a menos no bimestre.

A redução, no entanto, não ocorreu de maneira uniforme. Dos 62 municípios amazonenses, 16 apresentaram crescimento no número de focos. Entre eles estão Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri.

Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do IBGE que abrange uma área maior que o entorno imediato da capital, o total subiu de 18.231 para 18.980 focos, alta de 4,1%. Na região intermediária de Parintins, o número passou de 10.290 para 10.686, crescimento de 3,8%.

O contraste também aparece quando os municípios são observados individualmente. Manacapuru teve 2.730 focos em 2026, ante 1.230 em 2023, aumento de 122%. Iranduba passou de 192 para 657 detecções, alta de 242,2%, a maior variação percentual do levantamento. Em Caapiranga, os registros subiram de 946 para 2.248, crescimento de 137,6%.

Áreas próximas da capital registram aumento

Outros municípios considerados na avaliação geográfica também tiveram crescimento. Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, alta de 14,7%. Careiro subiu de 1.236 para 1.442, enquanto Manaquiri passou de 1.247 para 1.328. Rio Preto da Eva registrou aumento de 241 para 327 detecções.

Nova Olinda do Norte teve alta de 992 para 1.282 focos. Em Borba, os registros passaram de 1.550 para 1.771. Urucurituba apresentou crescimento de 457 para 1.192 detecções, variação de 160,8%.

A própria Manaus também teve aumento no período analisado: passou de 490 para 557 focos, alta de 13,7%. Por isso, a avaliação de possíveis fontes de fumaça precisa considerar tanto municípios vizinhos quanto ocorrências registradas dentro do território da capital.

Setor leste aparece em avaliação sobre o deslocamento do ar

Os mapas do Windy acrescentaram ao levantamento uma leitura sobre a circulação atmosférica. Nas imagens analisadas, os traços de vento no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus apresentaram orientação aproximada de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

Esse alinhamento é compatível com uma circulação de ar do setor leste em direção à região de Manaus. Se as partículas estivessem se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, a fumaça de queimadas localizadas nesse corredor poderia ser transportada até a capital.

Itacoatiara ganhou relevância nessa leitura por estar a leste de Manaus e ter registrado 252 focos adicionais no bimestre de 2026. Outros municípios do setor também tiveram alta. Em Urucurituba, o crescimento foi de 160,8%. Boa Vista do Ramos passou de 690 para 1.022 focos, aumento de 48,1%.

Esses dados apontam localidades que podem ser monitoradas, mas não comprovam que as partículas produzidas nesses municípios tenham alcançado Manaus. A confirmação dependeria do sentido efetivo dos ventos, da trajetória das plumas e da correspondência entre o momento das queimadas e as condições atmosféricas.

Possível contribuição pelo sudeste depende da circulação

O setor entre Borba e Itacoatiara também foi considerado na análise. Os mapas mostram traços com orientação diagonal nessa área. Caso o deslocamento ocorresse do sudeste para o noroeste, o fluxo poderia favorecer a aproximação de ar vindo de áreas situadas a sudeste de Manaus.

Borba registrou aumento de 1.550 para 1.771 focos, enquanto Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282. Os dois municípios, portanto, permanecem entre as áreas relevantes para acompanhar essa possibilidade.

Autazes e Careiro da Várzea, que também fazem parte da avaliação geográfica do setor sudeste, tiveram redução. Autazes caiu de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Em Careiro da Várzea, o número passou de 1.603 para 1.428, queda de 10,9%.

A diminuição não retira completamente esses municípios da análise. Os dois mantiveram quantidade significativa de registros, e a possibilidade de transporte depende da configuração atmosférica no momento das ocorrências. Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal em 2026, com 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Altas no oeste exigem outra configuração dos ventos

Manacapuru, Iranduba e Caapiranga estão em áreas a oeste e sudoeste de Manaus. O aumento dos focos nesses municípios pode ser relevante para a avaliação da fumaça, mas sua eventual chegada à capital dependeria de circulação proveniente desses setores ou de trajetórias atmosféricas capazes de levar as partículas até a cidade.

O alinhamento observado nos mapas para o corredor leste não explica, por si só, uma possível contribuição das queimadas de Manacapuru ou Iranduba. Para esses municípios, seria necessário verificar outra configuração do fluxo de ar.

Essa diferença separa duas etapas da análise. Os dados do SIPAM mostram onde os focos aumentaram ou diminuíram. Já os mapas meteorológicos ajudam a avaliar em quais condições o ar e as partículas poderiam se deslocar até Manaus.

Histórico indica predominância de ventos de leste e nordeste

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção do vento indica de onde ele vem. Um vento de leste, portanto, sopra do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna plausível a observação de municípios localizados a leste e nordeste como possíveis áreas de contribuição para episódios de fumaça.

A circulação atmosférica, porém, não é constante. Chuvas, variações regionais e influências locais podem alterar o fluxo. O estudo também menciona a possível atuação de brisas fluviais e diferenças entre os ventos próximos à superfície e os registrados em níveis mais elevados.

Imagens estáticas não confirmam a origem da fumaça

As imagens utilizadas na avaliação precisam ser interpretadas com cautela. Uma delas está na camada de temperatura, enquanto a outra mostra a acumulação de vento. As cores não representam concentração de fumaça nem qualidade do ar.

O indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados no mapa. O valor não deve ser considerado automaticamente como a velocidade atual do vento em Manaus.

Os traços brancos permitem observar o alinhamento do fluxo, mas uma captura estática não mostra com segurança para qual lado as partículas estão se deslocando. Também não há indicação legível de data, horário e configuração completa da previsão nas imagens analisadas.

Além disso, os mapas não demonstram, isoladamente, que o fluxo retratado corresponda às condições atmosféricas verificadas durante os incêndios registrados em agosto e setembro de 2026.

Queda estadual foi influenciada por municípios do sul

A redução do total do Amazonas foi puxada, em parte, pelo recuo de municípios que tinham grande número de detecções em 2023. Lábrea passou de 10.486 para 4.094 focos, queda de 61%. Humaitá registrou redução de 5.314 para 1.530, baixa de 71,2%.

Canutama caiu de 3.644 para 1.013 focos, recuo de 72,2%. Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107, diminuição de 58,5%. Também houve redução em Novo Aripuanã, Manicoré e Tapauá, com quedas de 23,7%, 46,6% e 68,9%, respectivamente.

Apuí seguiu em sentido diferente. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, aumento de 6,7%, e teve o maior total estadual no bimestre de 2026.

Comparação considera apenas agosto e setembro

O levantamento compara agosto e setembro de 2023 com os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede uma comparação dos trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos ao período, levando o total de agosto a outubro para 121.540 detecções. O mês representou aproximadamente 26,1% do trimestre.

A análise contextualiza 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação, contudo, mede a variação das detecções e não determina isoladamente a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.

Focos de calor não equivalem a incêndios individuais

A metodologia soma detecções feitas por satélite e organizadas por município a partir do Painel do Fogo do SIPAM. Os dados territoriais do IBGE foram usados para calcular a densidade de focos por 1.000 quilômetros quadrados.

Uma detecção de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. A mesma ocorrência pode gerar vários registros, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

Assim, o cruzamento dos dados sustenta a hipótese de que o aumento de focos em parte do entorno e do setor leste de Manaus pode contribuir para episódios de fumaça quando os ventos favorecem o transporte até a capital, mesmo com a redução do total estadual.

Para identificar quais municípios contribuíram em cada episódio, ainda é necessário combinar a localização e o horário das detecções com imagens das plumas de fumaça e trajetórias do ar em diferentes altitudes.